Entrevista: Projeto Trator

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Uma das primeiras bandas nacionais do rolê Stoner / Doom / Sludge que conheci, a Projeto Trator possui mais de dez anos de carreira, uma discografia que a cada novo disco se revitaliza e turnês por todos os cantos do Brasil e alguns países da América do Sul. Formada por Paulo Ueno (guitarra / vocal) e Thiago Padilha (bateria), o duo segue à todo vapor em 2017 e tive a oportunidade de trocar uma ideia com os caras. Confiram!


DB: Como vocês se conheceram e formaram a banda? A ideia de ser um duo vem desde o inicio ou foi algo que se solidificou depois de um tempo?

Thiago Padilha: A gente se conheceu em 2006 no orkut (acho que em algum grupo de stoner rock ou algo do tipo) e queríamos montar um projeto, pois tínhamos outras bandas na época. A ideia era ter alguém no baixo, mas em poucos ensaios a gente já tinha composto varias musicas, então decidimos manter a formação assim.

Paulo: Sim, à época o Padilha tinha uma banda que tocava até covers e eu estava tocando no Atitude! que era uma banda histórica aqui de São Paulo, da segunda metade dos anos 90, Crossover/Metal Punk. Sobre a decisão de seguir como duo, rolou lá pelo terceiro ou quarto ensaio, é muito mais prático.

DB: Quais são as influencias que vocês possuem na hora de compor?

Thiago Padilha: Nossas musicas sempre são criadas a partir de jams, então sempre é algo sem regras. Surgem como uma fusão de tudo o que escutamos. No meu caso, me inspiro em bateristas como Dale Crover, Joey LaCaze, Chris Hakius, Emil Amos, Brant Bjork, Mark Greening… no punk rock/hardcore (em geral) e em um monte de bateristas de jazz free/fusion, para tentar sair do convencional.

Paulo: Influencias temos várias menos esse papo de groove e brasilidade, isso é pentelho pra caralho rsrs.

Influencias no DNA, cada um tem o seu. Thrash metal e death metal old school, por exemplo, são drogas que eu comecei a usar no inicio dos anos 90 que me deixaram dependente, pior que nicotina, mas eu também tenho ouvido bastante hardcore europeu e black metal atmosférico Shoegaze para não ficar por fora rsrs. Punk e hardcore também são paixões eternas, aprendi tudo aí.

Alíás, o Projeto Trator pra mim é uma banda punk, acho que só eu acredito nisso.

Enfim, na hora de compor, não existe uma formula, a gente fica tocando por horas, fazendo jams intermináveis, sem regras, livre. A maior influencia é não se prender à nada ou quase nada, menos esse papo de groove com brasilidades rsrsr.

DB: A banda não se prende à mesma formula em cada material lançado. Isso é reflexo do que vocês escutam no período ou algo pessoal mesmo?

Thiago Padilha: Ficar se repetindo é um saco. Acho legal que o som do Projeto Trator seja fluido, experimental e em constante mutação (sem nunca deixar de ser chapado e pesado). O que estamos escutando interfere um pouco também, pois é uma referência do que é legal e nos inspira a fazer algo diferente.

Paulo: Não que seja algo intencional é natural mesmo. Eu escuto as mesmas coisas há 20 e poucos anos. Uma coisa eu confesso: colar em show, testemunhar os rolês é algo que sempre me influenciou muito. Eu acompanho essa loucura toda desde o inicio dos 90, tive uma pá de banda também e sempre que posso, eu colo nos roques e nas roubadas da vida. O Junta Tribo à época, por exemplo, foi um choque. Vê o Loop B ao vivo batendo panelas com delay e uma pá de loucura em 1994 (acho?) o que foi aquilo? Concreetnes, IML, a Dorsal Atlântica ao vivo, o Cólera todas as vezes que vi, sem contar as bandas dos amigos: Vincebuz, Fuzzly, Cassandra(PR), Marte(PR), Autoboneco, Agua Pesada, Mondo Bizarro(PE), Kalouv(PE), Black Witch(RN), Munoz(MG), Montana Electrica(ARG), Kayros(CH) Demonauta(CH)…enfim…todas elas nos influenciam de alguma forma. A gente guarda essas informações na memória. Entre outras coisas. Acho medíocre fazer um som focando um rotulo, uma gôndola, uma prateleira: “ahhh vamos fazer uma linda canção estoner com àquele riff, aquela pausa, àquele refrão incrível, aquelas brisas naquele momento “X”, ahh, vou timbrar o meu fuzz como a banda tal…” Caralho, que saco isso. Parece que as bandas não estão preocupadas em criar algo, sair do lugar comum, em ser como ela realmente é, assumir alguma limitação… não, continuam preocupadas em copiar e copiar…

DB: Em 2016 a banda completou 10 anos de atividade, lançou o álbum Humanofobia e fez a tour Fora Temer. Celebração, continuidade do trabalho e posicionamento em relação à situação política do país. Como foi para vocês atingir essa marca e em quais proporções essas questões políticas influenciaram no álbum?

Thiago Padilha: Nunca imaginei que o Projeto Trator pudesse durar tanto tempo, que fôssemos gravar vários materiais e viajar para muitos lugares. Tudo aconteceu naturalmente na base de muito sangue e suor para que a banda não fosse um hobbie. Eu respiro Projeto Trator.

Acho que não houve nenhum influencia politica direta no álbum, apenas não queríamos ficar neutros em relação aos acontecimentos políticos dos últimos anos no Brasil.

Paulo: Eu também nunca imaginei que fosse durar tanto tempo. A banda é reflexo da amizade, afinidades, é quase um casamento. Romântico isso rsrs. A gente tem banda pra tocar e as turnês são reflexo disso. O Humanofobia é quase uma coletânea, um resumo dos 10 anos de banda, com canções do Despacho, do nosso primeiro EP de 2007, dos splits que gravamos na nossa primeira gira pela Argentina, exceto as vinhetas que foram criadas durante a mixagem. À época em que o disco criou forma e foi lançado, foi um pouco após a efetivação do golpe, e cá entre nós, é foda omitir, aceitar e fazer de conta que não vimos nada, né? Em breve a Crocodilo Discos (nosso selo) lançará a camiseta “Golpe 2016 – Eu fui!”. A gente também quer faturar um pouco com essa história. rsrs

Humanofobia, lançado em 2016.

DB: A banda já tocou pela América do Sul e por quase todos os cantos do país. Nessas idas e vindas quais foram as experiências mais gratificantes que vocês tiveram?

Thiago Padilha: As turnês pela América do Sul renderam 2 splits e 1 ao vivo que me orgulho muito. Nas diversas turnês pelo Sul, Sudeste e Nordeste fizemos grandes amigos e parceiros. São muitas histórias, shows, festivais, roubadas, bandas incríveis… faria tudo de novo!

Se não for pra ser assim, não vejo sentido em ter uma banda.

Paulo: Difícil escolher uma cidade, estado ou país que fomos. Já rodamos duas vezes a Patagonia argentina, lembrando que poucas bandas brasileiras foram pra lá, ignorando o frio satânico e cruel, eu achei foda, da mesma forma que achei foda os shows no Chile, no nordeste todas as vezes que fomos, no sul do pais. Difícil essa resposta.

DB: Em 2017 vocês lançaram uma compilação com faixas ao vivos e participaram de uma série de eventos. Quais são os planos da banda para o restante do ano?

Thiago Padilha: Acabamos de lançar o “Gira Sudamerica: En Vivo” em K7. Também está para sair por agora o “Tributo ao SUB”, que conta com uma versão gosmenta da música “Porquê” do Ratos de Porão.

Também estamos com planos de gravar um novo álbum ou EP no segundo semestre, e como sempre, também estamos planejando novos shows e turnês.

Paulo: Gravar mais um EP de inéditas e tocar, basicamente isso. Estamos planejando mais gigs.

DB: Agradeço pela oportunidade e cedo o espaço para vocês passarem alguma mensagem final.

Thiago Padilha: A melhor forma de apoiar as bandas independentes é comprando os materiais e comparecendo nos shows. Menos facebook e mais vida real.

Valeu Doombringer, a Projeto Trator Crew (vocês sabem quem vocês são) e aos nossos amigos e todos que de alguma forma curtem e nos apoiam a continuar a fazer essa loucura.

Paulo: Acho um porre a patrulha do politicamente correto mas o momento ao qual passamos só o reforça o mantra do não ao fascismo, à qualquer tipo de preconceito, à homofobia, por que o bagulho tá ficando louco, só de observar pessoas levando a sério esse tal de Bolson… o país regredindo 100 anos em algumas horas, entre outras coisas. Tenso. Vamo viver mais a vida real, menos eventos de feicibuke e mais cartazes na rua, eu sei que isso é utópico.

Você deseja montar uma banda? Manda ver! Faça do seu jeito. Ah, não sabe tocar nada? Insista! Monte a banda do seu jeito e com seus amigos que vai rolar. Ignore padrões e fórmulas.

Projeto Trator na web:

Facebook / Bandcamp / Instagram

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